Lar Vida completa 40 anos entre desafios financeiros e luta por dignidade para pessoas com deficiência em Salvador

Entrada do Lar Vida, no Novo Marotinho - Foto: Allan Alcantara


Localizado no bairro do Novo Marotinho, próximo ao Estádio Manoel Barradas, o Barradão, em Salvador (BA), o Lar Vida perpassa 40 anos de funcionamento enquanto acolhe crianças, adolescentes e adultos com deficiência encaminhados pelo Ministério Público, Vara da Infância, Conselho Tutelar e Central de Vagas. 

Fundado em 1985 pela educadora Maria Cristina Cordeiro Caldas e pelo marido, Guilherme da Silva Caldas, o espaço comunitário surgiu como uma creche voltada para o cuidado de crianças com deficiência, mas se transformou em um abrigo permanente quando muitos pais deixaram seus filhos e nunca mais retornaram.


O Lar Vida nasceu na casa do fundador, no bairro de Patamares, na orla da capital baiana. Cristina recebeu crianças abandonadas pelos responsáveis, até que a residência se tornou pequena demais para a demanda. Ao observar a situação do local através de jornais e amigos da época, um doador anônimo ofereceu o sítio onde a instituição funciona até hoje. 


Com isso, novas estruturas foram erguidas por meio de voluntários e parcerias. Após a morte de Cristina, em 2021, e de Guilherme, em 2020, o filho do casal, Alexandre Caldas, assumiu a presidência da instituição.


Quatro décadas depois, a instituição se mantém ativa, mas enfrenta dificuldades financeiras e estruturais que ameaçam a continuidade do serviço. Segundo informações apuradas pela equipe do folhetim “A Carestia” durante visita ao lar, o convênio firmado com a Prefeitura de Salvador cobre apenas uma parte dos acolhidos e não acompanha o aumento das demandas. 


A instituição depende de doações para cuidar de alimentação, saúde, transporte, equipamentos e manutenção de mais de 100 agregados. A rotina do Lar Vida revela um funcionamento diário que envolve enfermagem, fisioterapia, cuidadores, equipe pedagógica, psicólogos, assistentes sociais e voluntários. 


Diante da alta complexidade de casos, da permanência vitalícia de muitos reunidos e da falta de políticas públicas que contemplam adultos com deficiência abandonadas, a instituição se torna a única maior possível para pedaços de pessoas que jamais retornarão às famílias.


Fachada da diretoria e cooperativa do Lar Vida - Foto: Allan Alcantara


A social media da instituição, Ana Lúcia, de 20 anos, explicou em entrevista ao folhetim “A Carestia” que todos os acolhidos chegam por determinação judicial. Em suas palavras, “todos os nossos títulos são direcionados pela vara da infância para a instituição”. 

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Segundo Ana, o Lar Vida recebe crianças e adolescentes dos 0 aos 17 anos, no entanto, o Alojamento não acaba quando chega à maioridade. Quando completaram 18 anos, por não terem referências familiares e por apresentarem deficiências graves que dificultam a convivência, encontraram solução no local para sempre: "eles moram aqui. Eles moram aqui mesmo", afirmou Ana.

Ainda segundo Lúcia, ao longo dos anos, o perfil etário mudou porque as crianças que chegaram décadas atrás se tornaram adultos, sem qualquer condição de vida independente em sociedade. Alguns foram retirados das famílias por maus-tratos, outros foram abandonados ou encontrados em situação de rua. 

“A gente aqui só faz receber e acolher, juntamente com nossa equipe de assistência social”, destacou a mídia social de 20 anos.

Atualmente, a instituição funciona em dois pavilhões chamados Abraço 1 e Abraço 2. No segundo ficam os acamados que ainda são menores de idade. Quando completam 18 anos, são realocados para o Abraço 1. Há também pavilhões destinados a medicamentos, lavanderia industrial, cozinha, depósito de alimentos e dormitórios separados por gênero e faixa etária.


Ana Lúcia, social media do Lar Vida - Foto: Allan Alcantara

Falta de recursos e um convênio insuficiente

A falta de recursos financeiros não é um problema isolado no abrigo localizado em Novo Marotinho. De acordo com um levantamento realizado pela organização Phomenta com 403 organizações da sociedade civil (OSCs), cerca de 86% das instituições entrevistadas apontaram a limitação de recursos financeiros como uma grande dificuldade para manter o nível local de pé.

Como é relatado por Sonia Argollo, diretora de assistência social e voluntária há 25 anos, os trâmites com os convênios acabam prejudicando o acesso a diversos benefícios. As Organizações Não Governamentais (ONGs) menores, que muitas vezes são aquelas que mantêm abrigos locais, têm ainda mais dificuldade em acessar editais de financiamento.

Embora a parceria represente um avanço, a instituição ainda enfrenta um déficit de arrecadações sem qualquer cobertura governamental. Segundo Sonia, muitos desses adultos vão viver e morrer ali, sem outra alternativa de acolhimento.

A Iniciativa Pipa, projeto que busca democratizar a distribuição dos, conectando a filantropia às favelas e periferias do Brasil, revelou em uma pesquisa intitulada como "Captação via editais: desafios enfrentados pelas pequenas ONGs" , que o processo de inscrição é burocrático e consome tempo (15 dias a 1 mês para preparar um projeto), e quando são, o valor cobre cerca de 75% do que seria necessário para manter equipe, estrutura e materiais, dados que nos são apresentados pela diretora do Lar Vida.

Apesar da complexidade do serviço, o valor recebido por convênio, pago pelas gestões municipais, estaduais e federais (tripartido), cobre apenas 40 vagas para menores. Segundo Ana Lúcia, há menos de 30 crianças e adolescentes nesta faixa etária de hoje, o que significa que a verba repassada não chega sequer ao limite contratado e, ainda assim, não atende às despesas reais. 

“Essa palavra não é suprema nem 30 por cento das nossas necessidades mensais”, disparou um jovem sobre a situação financeira do local.

Pavilhão de saúde e entrada dos dormitórios do Lar Vida - Foto: Allan Alcantara

Além disso, a situação tende a piorar com os adultos acolhidos. Argollo detalhou o processo financeiro e as dificuldades que englobam a ação em entrevista ao projeto “A Carestia”.

“Dos 109 acolhidos, a gente só tem um convênio para 40 crianças e adolescentes. Para o governo é como se fosse invisível. Porque eles são encaminhados para aqui, a gente precisa de convênio e não temos esse convênio. E eles vão terminar morrendo aqui com a gente. Então, a gente não tem para onde andar, prestamos um serviço muito grande ao estado e ao município, porque se não tivesse um Lar Vida, para onde iriam essas crianças?”, desabafou Sonia. 

Em junho deste ano, a Prefeitura de Salvador firmou, por meio da Secretaria Municipal de Promoção Social, Combate à Pobreza, Esportes e Lazer (Sempre), um novo convênio com o Lar Vida, ampliando o atendimento por meio da Residência Inclusiva para adultos com deficiência. O acordo cria 30 novas vagas e inclui a entrega de um veículo para facilitar o transporte dos acolhidos.

No entanto, ainda de acordo com Sónia, ainda restam cerca de 50 pessoas sem qualquer cobertura governamental. A diretora enfatiza que essas pessoas não têm para onde ir, não têm famílias, não têm suporte externo e, obviamente, serão reinseridas em outro ambiente. 

Segundo Argolo, o Lar Vida acaba se tornando a única alternativa na vida destes indivíduos. São pessoas com deficiência grave, muitas em condição de acamamento permanente, necessitando de medicação contínua, fraldas, alimentação especial e acompanhamento intensivo.

Além da falta de repasses adequados, a instituição não possui médicos próprios. Quando você precisa de receitas, encaminhamentos ou atendimentos especializados, depende do sistema público de saúde e de buscas individuais por profissionais parceiros. 

“É uma dificuldade muito grande, praticamente todos fazem uso de remédio controlado e a gente precisa correr atrás de receita, de carimbo, de tudo”, diz Argolo.

Sonia Argollo, diretora de assistência social do Lar Vida – Foto: Allan Alcantara

Transporte, saúde e estrutura

Um dos maiores custos diários do abrigo é o transporte, já que os encontrados vão para consultas médicas, exames, hospitais e atendimentos externos, não fornecem acesso ao valor exato gasto com locomoção dos residentes, mas, segundo as redes sociais do local, o montante é “absurdo”. A instituição utiliza aplicativos de transporte porque não dispõe de veículos suficientes para atender às demandas de saúde.

“Diariamente a gente tem gastos absurdos com locomoção”, relata Ana.

Para dar suporte a ofertas de coleções, o Lar Vida conta com cerca de 100 funcionários que trabalham em regime de 24 horas. A folha de pagamento e os impostos consomem boa parte dos recursos, tornando-se as ações essenciais para a continuidade do funcionamento.

O cuidador Júnior, de 45 anos, funcionário do Lar Vida há quase um ano, descreve o trabalho como uma rotina que exige adaptação constante ao comportamento e às necessidades individuais dos acolhidos. A cada plantação, elabora relatórios sobre o estado de saúde e o comportamento de cada um, o que ajuda na avaliação da equipe técnica.

Além de expor o seu processo de adequação dentro da instituição como funcionário, Júnior também explicou como lida com crises e surtos dos acolhidos que possuem deficiências mais graves.

“Quando ele está surtando (apontou para um dos residentes), você deixa ele um pouco à vontade. Quando ele não estiver quebrando nada, você sai. A partir do momento que ele começar a agredir os outros acolhidos e até a gente também, aí a gente leva para o quarto até se rir. É a luta. A luta contínua”, explicou o cuidador.

Júnior, cuidador do Lar Vida - Foto: Allan Alcantara

O papel das redes sociais no Lar Vida

Como consequência da vitória de verba, a responsável pela produção audiovisual da Lar Vida, Ana Lúcia, afirmou que trabalha com equipamentos próprios por falta de recursos para investir no setor. Para Ana, o desafio é grande, mas o trabalho também é uma forma de revelar talentos e identidades que muitas vezes são invisibilizadas pela deficiência.

"Além da deficiência você consegue desenvolver um conteúdo massa. Eu gosto de extrair essa parte criativa deles", diz Ana.

Essa presença digital tem sido fundamental para as campanhas mensais de doação, que, segundo Ana, acaba de garantir grande parte da alimentação, materiais de higiene básica, fraldas, produtos de limpeza e até recursos financeiros emergenciais em caso de cirurgias ou obras estruturais.

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Apesar das limitações, o Lar Vida desenvolve projetos voltados à autonomia de acolhidos com deficiência leve. A instituição montou uma casa piloto para ensinar atividades como cozinhar, ir ao banco, pegar ônibus e organizar o próprio dia. Segundo Sónia, o objetivo é permitir que, no futuro, alguns “possam viver fora da instituição” com o apoio do Benefício de Prestação Continuada.

Nascido há 40 anos, a permanência da instituição depende, majoritariamente, da solidariedade da sociedade civil. Em meio a convênios insuficientes, ausência de suporte médico do Estado e despesas crescentes, as doações tornam-se fundamentais para manter a alimentação, o transporte, a saúde e a dignidade dos agregados.

Como ajudar?

As doações em dinheiro podem ser feitas diretamente nas contas bancárias da instituição: Banco do Brasil: Agência 1599-7 / Conta corrente: 12886-4

Bradesco: Agência 1425-7 / Conta corrente: 27538-7

Itaú: Agência 1510 / Conta corrente: 36213-8

Pix do Lar Vida: CNPJ 13.787.932/0001-78

Para tirar dúvidas sobre como fazer: WhatsApp (71) 99106-7632.

Depósito de suprimentos do Lar Vida - Foto: Allan Alcantara

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